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Areia Branca, Dez.'88
DIZ QUE FOI UMA ESPÉCIE DE "SURFTRIP"...

Dezembro de 1988, estaríamos nas férias de natal. Hoje qualquer miúdo com dezassete anos já está a tirar a carta, pois mal faz os dezoito ou já tem carro próprio, ou já tem o carro do papá para ir para a praia. Nós naquele tempo não… íamos a pé, fizesse sol ou chuva, calor ou frio, íamos a pé.

De vez em quando lá se arranjava um carrito, e isso permitia explorar ondas um pouco mais longe… que na altura eram longe, hoje não, hoje é tudo perto.

Nesse dia, o meu amigo Valara tinha o “Puchy” à disposição. O “Puchy” era um mini, castanho, e já com o belo do autocolante de surf no vidro de trás, que o pai de uma ex-namorada do Valara emprestava na boa para a malta ir surfar, foi carro de muitas aventuras. Eram sempre dias maravilhosos, pois era um luxo ir para a praia de carro, era um luxo ir à procura de ondas, era um luxo ir à procura de ondas fora de Peniche.

Nesse dia fomos longe, fomos até à Areia Branca, sim Areia Branca, ali ao pé da Lourinhã. Ir surfar longe, era quase uma “surftrip”.

Para além de mim e do Valara, que era o “dono” do carro, o resto do “crowd” era composto pelo Bernardo e pelo Jimmy. Chegámos à Areia Branca, nunca lá tínhamos surfado, aliás, no meu caso, acho que o mais longe que já tinha surfado tinha sido no Lagido. Isto hoje parece estranho, mas com tantas ondas em redor de Peniche, e com o reduzido “crowd” da altura raramente era preciso procurar muito para ir surfar.

Bem, como estava a dizer, chegámos à Areia Branca, e estavam a dar umas ondas, até ‘pró grandote’, talvez aí uns dois metrões bem medidos, mas visto cá de trás até nos pareciam acessíveis.

O Valara como sempre, ainda por cima com a mania de querer ser fuzileiro, andava na altura a levar porrada que nem um maluco lá ‘prós’lados do Alfeite, ficou logo em ânsias para entrar, o Bernas e o Jimmy iam aguentar mais um bocado, e eu, feito otário decidi acompanha-lo.

Depois do ritual dos fatos molhados e wax na prancha… a caminho do mar. Quanto mais nos aproximávamos pior…, ou dito de outra forma, melhor eu via no que me estava a meter. Os dois metros do Valara já não pareciam bem dois metros, e já não ‘tava’ muito certo se tinha feito bem acompanhar aquele maluco com a cabeça toda queimada lá das lavagens cerebrais da merda das tropas especiais.

Bom, já lá estava em baixo, agora também já não voltava para trás, e lá nos fizemos à água. Só vos digo que levámos um enxerto daqueles para entrar que não foi brincadeira, mas lá conseguimos passar. Claro que os outros lá fora, depois de verem esta recepção, já não entraram… eles é que fizeram bem.

Chegados ao “outside”, aquilo apresentava-se realmente maior do que estávamos à espera, e não era só um bocadinho. O Valara foi o primeiro a apanhar uma onda, e para não variar, mandou um estaladão daqueles lá de cima, mas isso até nem foi o pior, o que me deixou mais apreensivo foi o facto de ele quando chegou ao pé de mim outra vez, dizer para ter cuidado que tinha ficado preso num anzol de aparelho. Se eu já estava um bocado arrependido de ter entrado, ainda pior fiquei, mas agora também não tinha grandes alternativas, tinha de apanhar pelo menos uma para sair.

Depois de umas tentativas, finalmente lá arranquei numa esquerda… só pensava em não cair, pois o aparelho não me saía da cabeça… e não caí, foi apanhar a parede e sempre a andar em frente sem grandes avarias, até porque a prancha nem era minha, era do Sandro, e por sinal bastante pequena para aquelas ondas, a minha tinha-a partido ao meio (mais uma) uns dias antes no Molhe. No fim da onda quando o espumaço me apanha, enrola-me de uma maneira que mais parecia uma máquina de lavar gigante… e eu sempre a querer vir ao de cima… quando dou por ela tinha pé… nem pensei duas vezes, ala que se faz tarde, terra, que daquela já ‘tava’ safo.

O Valara tinha lá ficado, apanha então uma direita, e a estratégia foi a mesma que a minha… parede, sempre em frente e… saiu.

Já fora de água e a salvo, nenhum de nós deu parte fraca, e até posso dizer que viemos de peito feito ter com os outros que cá estavam fora... eheheheh… mal eles sabiam o alívio que sentia por já cá estar fora na conversa com eles (e se calhar até sabiam…).

E foi assim a nossa “surftrip” nesse dia. Não me lembro de ter voltado a surfar na Areia Branca outra vez… ficou a recordação.