Assumimos neste espaço que uma das suas prioridades seria a defesa do património ambiental da Capital da Onda, e consequentemente a denúncia de casos que o lesassem de algum modo, e já o fizemos algumas vezes.
Escrevi recentemente que a organização do Rip Curl Pro este ano tinha tido uma preocupação acrescida em minimizar a pegada ecológica que um evento desta magnitude deixaria na zona onde decorre. Assentei esta opinião fundamentalmente na observação que fiz na montagem da estrutura, que me pareceu bastante razoável neste aspeto. Para além disso, houve algumas iniciativas de cariz ambiental durante o evento que me pareceram importantes, bem como a inclusão de algumas ONG’s com preocupações nesta área.
Mais de uma semana depois de o evento ter terminado, aquilo que podemos ver na Praia dos Supertubos, vai completamente em sentido contrário do que me tinha sido dado a observar no início. É verdadeiramente inadmissível o estado em que aquela praia está, estou chocado com a irresponsabilidade demonstrada pelo organizador, pois isto de Rip Curl Planet’s …, de não pisem as dunas …, de salvem as nossas praias … e mais não sei o quê, com constantes avisos ao longo do evento é tudo muito bonito, mas quando se vão embora o que fica é isto:
Fotos de António Figueiredo, tiradas em 27 de Outubro de 2012
Não me venham com a desculpa que ainda não terminaram de desmontar, e mais isto e mais aquilo, pois o estado em que aquela duna ficou nada tem a ver com lixo, tem a ver com o facto de estar completamente destruída na sua biodiversidade, pois andaram lá com máquinas em cima, como é possível ver pelo rasto deixado.
O organizador deste evento tem de ser chamado à responsabilidade pela agressão ambiental que está a praticar nesta praia, não sei é se haverá coragem por parte das instituições que nos representam para o fazer.
Se fizermos fé no que fizeram, quando este verão destruíram uma duna na Praia do Cerro, então já sabemos qual é a resposta: NADA
Ainda bem que eu não ganho dinheiro nenhum com o surf, pelo menos assim tenho tempo para estas infantilidades…
 Foto: Carlos Tiago As expectativas estavam altas, muito altas, pois em 2011, Supertubos tinha estado simplesmente extraordinário.
Apesar de uma estrutura ligeiramente mais leve, a imponência da mesma não deixou de marcar ainda assim a pacata paisagem desta praia, conhecida e reconhecida nos quatro cantos do mundo, onde foi no entanto notória a preocupação de minimizar ao máximo a pegada ecológica de um evento deste calibre.
Foi um evento difícil de gerir, talvez pela expectativa das previsões serem bastante animadoras, e de ainda, na nossa memória estarem presentes os tubos do ano anterior.
O “swell” esteve pouco consistente ao longo de todo o período de espera, não encaixando sempre nos bancos dos Supertubos, ainda assim, em determinadas alturas da maré, foi possível ver ondas de altíssima qualidade, que aliadas ao talento dos intervenientes, proporcionaram “scores” quase perfeitos. A nível de curiosidade, das duzentas e trinta e três ondas que contaram para definir os “scores”, quase metade delas foram pontuadas com notas de bom para cima (cinco notas dez incluídas), mais precisamente 49,8%.
Admitindo que é sempre mais fácil falar à posteriori, houve no entanto na minha opinião, à semelhança de 2009, alguns erros de avaliação das condições por parte do diretor de prova. Exemplo disto, foi a quarta-feira, dia 17, em que os “heats” da parte da manhã nunca deveriam ter ido para a água, pois não se põe em causa daquela maneira, a imagem tanto dos surfistas, como da própria onda, quando nos dois dias anteriores teve a possibilidade de os fazer no pico alternativo em condições bastante melhores. Foi a todos os níveis frustrante ver um surfista como Kelly Slater ter nas suas duas melhores ondas um 2,67 e um 2,60, quando um par de horas depois houve um dez, e várias notas acima de oito.
Quanto à final, e se houve um erro por parte de Gabriel Medina que perdeu a prioridade já no último minuto, o 8,43 atribuído à última onda de Julian Wilson deixou no mínimo algumas dúvidas, mas isso, são contas de outro rosário... Para a história o que perdurará será a vitória do australiano, a primeira da sua carreira no World Tour.
Um dos aspetos bastante positivos neste Rip Curl Pro 2012, foi a proximidade existente com o PPSC – Peniche Surf Clube, clube que legitimamente representa os surfistas de Peniche, e que permitiu entre muitas outras coisas, a realização pela primeira vez em Portugal de um “Trials of the Trials”. Esta prova organizada pelo clube local, apurou um atleta para o “Trials” oficial do evento, merecendo destaque o facto de ter sido autorizado pela Rip Curl, a utilização da estrutura do evento principal para a sua realização.
Francamente negativo na minha opinião, foi a realização do Festival Moche naquele local. Defendo que este tipo de iniciativas deve ter sempre lugar dentro de Peniche. Foi-me garantido que houve essa preocupação por parte das entidades locais, e acredito que sim, mas que os promotores foram irredutíveis nesse aspeto.
É preciso então que não nos verguemos em demasia às decisões de quem tem o dinheiro e que imponhamos também a nossa vontade, puxando se for caso disso, dos galões da legitimidade de sermos parceiros e detentores do bem que eles querem utilizar, a onda dos Supertubos.
De uma vez por todas, se nós precisamos deles para realizar cá este evento de modo a nos promovermos, eles também precisam de o fazer cá (lá está, parceiros), pois em Portugal não encontram outro lugar com as condições que nós temos para lhes oferecer. Haja coragem, e se necessário for, dêem-se alguns murros na mesa.
Para terminar, os números não mentem, e na minha opinião este campeonato merece nota positiva. Que venha 2013.
Localismo, voltamos ao tema. O tal que causa embaraço a muita gente, principalmente àqueles que tem necessidade de ser politicamente correctos, por este ou aquele motivo. Não é o meu caso.
Já aqui há uns meses tive oportunidade de falar sobre localismo, hoje volto ao assunto, pois começam a passar-se em Peniche situações que pela sua gravidade terão de ter uma solução.
Estes três episódios que irei relatar, passaram-se por cá em pouco mais de um mês, sendo que os dois últimos foram na mesma semana, e são, por si só, demonstrativos do ambiente que se vive nas praias de Peniche. No primeiro estive envolvido, nos outros dois não irei revelar as identidades dos protagonistas, eles o farão, se assim o entenderem.
1º
Estávamos em finais de Agosto, princípios de Setembro nos Supertubos, num daqueles poucos dias em que as ondas, apesar de pequenas, nos brindaram por aquelas bandas, numa surfada descontraída de verão.
A determinada altura um amigo meu, local dos sete costados, leva um dropino até terra, e ao tirar satisfações do sucedido com o infractor, este empina-se e grita de tal maneira que me fez remar até eles para ver o que se passava… a coisa acalmou. Já cá fora, junto dos chuveiros onde estávamos a tirar os fatos, a conversa começa outra vez entre o meu amigo e o tal forasteiro que entretanto chegara. No meio da conversa, que até estava a ser calma, este vira-se e diz que já faz surf há seis anos e que não tem medo de ninguém. Eu que ainda não tinha intervindo, e já estava com a minha filha ali ao pé, virei-me para ele e disse-lhe que se ele faz surf há seis, eu faço quase há trinta, e que a sorte dele era ter sido com um gajo calmo, pois se fosse com outro, talvez a coisa fosse mais complicada. E virei costas para me ir embora. O personagem vem atrás de mim pela esplanada do bar e começa a gritar comigo e a desafiar-me para resolver o assunto já ali. Ainda parei, mas com a minha filha ao colo, achei que não seria o melhor exemplo que lhe dava, ignorei e segui caminho.
Soube mais tarde que este forasteiro manteve esta mesma atitude com outros locais no Baleal e no Molhe Leste.
2º
É de conhecimento local que o Pico do Cerro não é uma onda de excelência nem nada que se pareça, mas permite fazer desporto, mexer o corpo, treinar nem que seja rodinhas e cut-backs e por vezes até consegue proporcionar momentos divertidos, lá isso é verdade.
Pela primeira vez em 15 anos que faço bodyboard tive medo de estar a surfar, correndo o risco de não sair dali com a minha cara inteira...no pico de onde consigo avistar a minha casa, e onde pela primeira vez senti o que era fazer bodyboard…
Se calhar muitos de vós irão pensar: “olha este meteu-se a armar em esperto, se calhar merecia!”, até nem foi o caso, e quem me conhece sabe que não sou violento, nem stressado, até sou calmo. Quando entrei nem estava quase ninguém, depois foi chegando o crowd, e com aquelas ondas nem vale a pena stressar muito.
Eis então que sou dropinado, sim fui dropinado e não o contrário. Não puxei o bottom porque senão de certeza que me iria magoar contra o surfista e tranquilo disse-lhe: “pah já dropinas aqui? Aqui não dropinas quase que me magoavas, têm mas é calminha” – responde em brasileiro: ”o que é que você quer, me deixa surfar!!” – Voltei a dizer quem ele pensava que era, que ali não dropinava ninguém. E foi aí que as coisas se complicaram, veio direito a mim e disse nestas palavras: “Brasileiro não briga não, brasileiro parte logo para cima, você quer ir lá para fora?? Você não me conhece cara eu sou maluco!! Vê lá se queres que te estrague essa tua carinha!!”
Perante toda aquela agressividade e de ainda me avisar que nos víamos por aí, estando eu sozinho, infelizmente fui obrigado a baixar a bolinha na minha própria terra, no pico onde aprendi a fazer bodyboard.
3º
Hoje nos Super, um “pintarolas” do surf, a falar castelhano, meteu-se numa onda de set, supostamente minha, e ainda ficou muito chateado por lhe ter agarrado na remada. De tal maneira, que teve o desplante de me desafiar para ir para a areia resolver o assunto.
O ... [outro local] veio ao pé de nós, para perceber porque não fui na onda e também foi convidado para ir lá para fora.
Isto é grave, muito grave, e não há muito a falar sobre o assunto, apenas que senhores como estes, são capazes de precisar de uma ajudinha para rever a sua atitude, pois desta maneira não são bem-vindos a Peniche.
No entanto, não é por acaso que isto acontece cada vez com maior frequência por cá, e a desunião existente entre os surfistas de Peniche, tanto no “line-up”, como em torno do clube de surf local, é uma das razões que potenciam este tipo de situações. Quem chega, não vê a força/união que deveria ver por parte dos surfistas locais.
Por outro lado, e não menos importante que o ponto em cima, os constantes atropelos à dignidade que o surf penicheiro é alvo, uns mais dissimulados do que outros, por parte da imprensa e de alguns lobbies surfísticos, sem que ninguém com responsabilidades institucionais tenha coragem ou vontade de se insurgir, acaba também por potenciar este tipo de situações.
Peniche já foi conhecida no mundo do surf nacional pelo respeito que os seus locais impunham a quem cá vinha, mas isso devia-se principalmente há união existente e ao respeito, que nós locais, tínhamos uns pelos outros, e quem chegava percebia nitidamente isso quando entrava na água.
Quem faz surf, e não quem anda há meia dúzia de dias metido nestas andanças, sabe perfeitamente que existem regras intrínsecas ao próprio desporto que devem ser respeitadas, e uma delas é o respeito pelos locais.
Nos “line-up’s” da Capital da Onda, começa a ser banal essa falta de respeito, e isto é algo que não pode acontecer.
Está na altura, de nós locais, mudarmos de atitude, e a palavra de ordem terá de ser… UNIÃO.
O rastilho está acesso, esperemos que não rebente a bomba.
Escrevi sensivelmente há ano e meio, ainda no extinto Jornal de Peniche Online, dois artigos sobre a verdadeira miséria em termos ambientais, que é a foz do Rio de S. Domingos na Praia do Molhe Leste. De lá para cá, nada mudou, absolutamente nada, a miséria continua a mesma. É verdadeiramente vergonhoso que num município que faz eco da sua preocupação ambiental, permita que em pleno século vinte e um, exista a escassos metros da onda rainha da Capital da Onda, e em frente a uma das melhores ondas de Peniche, este verdadeiro cancro ambiental, foco de bactérias e potenciador de inúmeras doenças. É verdadeiramente vergonhoso que em Plena Capital da Onda, os surfistas tenham de colocar em risco durante todo o ano a sua saúde, para usufruírem de uma das melhores ondas de Peniche. É verdadeiramente vergonhoso que se faça a promoção desta praia no Guia de Surf elaborado pela Câmara Municipal de Peniche, e disponível no seu “site” oficial, não informando os potenciais utilizadores da possibilidade de ficarem doentes se ali fizerem surf. É verdadeiramente vergonhoso o estado em que se encontrava a Praia do Molhe Leste no passado dia 21 de Agosto de 2012. Fotos: Damião Granada (em 21-08-2012)
Escrito por: Edgar Henriqeus
Decorreu no passado fim-de-semana em Ribeira de Ilhas a primeira etapa do Rip Curl Grom Search, by Posca, uma das 12 etapas que a marca Rip Curl planeou realizar em 2012, em quatro países europeus, nomeadamente França, Reino Unido, Espanha e Portugal.
É de salientar o esforço desta marca na realização deste evento europeu, que irá culminar com a final europeia a realizar em Peniche durante o mês de outubro de 2012.
Este evento permite aos jovens surfistas nacionais, desenvolver o surf na vertente competitiva e consequentemente melhorar o seu nível, bem como conviver com outros surfistas, juízes e público.
É de realçar o facto, que o somatório dos pontos obtidos na etapa da Ericeira, conjuntamente com aqueles que podem vir a obter na etapa da Caparica, dão aos dois melhores classificados do escalão sub 16, masculinos e femininos, o prémio de participação na tão desejada final europeia de Peniche. Sendo que este prémio serve de incentivo aos jovens atletas em busca de uma das vagas do referido evento.
Depois de realizada a primeira etapa, será de avaliar aquilo que se passou em Ribeira de Ilhas naquilo que diz respeito ao evento nas suas mais diversas vertentes.
Vejamos então no que diz respeito à data do evento, esta foi inicialmente planeada e divulgada, e depois foi alterada, desconheço o motivo, mas acredito que foi em benefício dos atletas e na busca de melhores condições de organização.
A divulgação do evento foi bem executada, pois esta chegou com facilidade aos atletas, através dos websites informativos na área do surf, esta permitiu aos atletas ficarem a par dos procedimentos necessários para participarem no evento.
A prova, foi homologada pela FPS, cujas inscrições foram realizadas no seu website, estas decorreram desde o início de agosto até ao dia 15 de agosto. Segundo este facto, para um atleta se inscrever no evento teria obrigatoriamente de ser federado na FPS, sendo que atletas não federados na nossa federação não poderiam participar na prova.
Depois de fechadas as inscrições, empresa ou clube responsáveis pela organização técnica do evento, delinearam as baterias de cada escalão e divulgaram por e-mail para os participantes, um ou dois dias antes do inicio da prova.
No que diz respeito ao regulamento ou regras deste evento, não foram disponibilizados aos participantes, bem como o valor a pagar pelas inscrições. No dia da prova quando se realizou o chek in, foi solicitado aos atletas o Cartão de Atleta da FPS, e o pagamento de 15,00 euros. Processo semelhante ao que é realizado nas provas do Campeonato Nacional de Surf de Esperanças, o que me levou a deduzir que os regulamentos seriam os da FPS.
Depois do Chek-In, foram colocados num placard os heats dos diversos escalões (sub 12, 14, 16 Masc. e Sub 16 Fem.), ai constatei que os atletas masculinos dos escalões sub12 e sub 14, poderiam participar no seu escalão e também no escalão sub 16.
Qual não foi o meu espanto, que ao observar as baterias do escalão de sub 16, que num dos hets, estava um atleta oriundo das “Terras de Astérix”, o qual provocou o espanto de alguns que estavam na praia. Foram tecendo alguns comentários ao facto. Surgiram perguntas, tais como: Será que um atleta estrangeiro pode participar neste evento nacional? Se não é federado na FPS, como se inscreveu? Eu também quis inscrever um atleta não federado e não tive autorização? Este atleta poderá impedir a participação de atletas nacionais no evento Europeu?
Todos estavam apreensivos sobre o assunto e não havia respostas, eu próprio fui tentar saber como tinha sido possível esta situação. Para tal dirigi-me ao responsável pela organização técnica da prova e coloquei algumas questões:
· Como é que um atleta francês, que não é federado na FPS, pode participar neste evento?
· Se não é federado não tem seguro desportivo e está a participar?
· A sua participação poderá hipotecar a participação de atletas nacionais na final europeia?
As respostas foram tímidas e pouco convincentes, mas o primeiro argumento, foi que este atleta francês era um Wild Card da Rip Curl, e que tinha sido a marca a indicar que o referido atleta iria participar no evento. No que diz respeito ao seguro deste atleta, a resposta foi que tinha sido assinado um termo de responsabilidade para o efeito.
Foi também dito pelo responsável técnico do evento, que a participação deste atleta francês não iria retirar nenhuma vaga aos atletas nacionais na prova da final europeia.
É de salientar, que nada tenho contra o atleta, pois ele será o menos culpado desta situação, devo mencionar que fiquei maravilhado com o seu nível de surf. Mas a realidade diz-me que alguns dos atletas nacionais que se cruzaram nos heats com este atleta e que foram eliminados da competição, tem agora menos hipóteses de se qualificarem para a tão desejada final europeia.
Todo este processo, poderia ser evitado, se o organizador tivesse esclarecido todos os participantes, antes do início da prova que tinha atribuído um wil card, bem como elucidar acerca dos regulamentos e procedimentos. É um dever do organizador esclarecer as “regras do jogo”, pois convém não esquecer que os participantes pagaram a sua inscrição para participar no evento. Pelo facto não deveria ter optado pela figura do “Quero, Posso e Mando”.
Desconhecendo os regulamentos do Grom Search, penso que o mais justo, seria as provas realizadas em cada um dos países, ser apenas destinadas a atletas nacionais, para desta forma todos os países estarem representados na final europeia.
Aguardo pela etapa da Costa da Caparica, prevendo que esta vai ser bastante disputada, na busca de boas prestações que permitam o acesso a final europeia.
Espero também para ver se nesta etapa também vai haver outro, ou o mesmo wil card.
Desejo que Portugal seja bem representado e com os dois atletas a que tem direito em Peniche na final europeia.
Parabéns á Rip Curl por esta iniciativa á escala mundial, que permite aos jovens surfistas demonstrarem o seu valor e consequente evolução do seu nível de surf.
Refletir, Avaliar, Modificar, Ajustar…. Fazem parte da Evolução.
Boas Ondas
Escrito por: Edgar Henriques O “ aquecimento” antes de iniciar qualquer prática desportiva deve ser um hábito comum, sendo que este é um dos fatores importantes na prescrição e execução de qualquer programa de atividade física, como tal o Surf não deve fugir a esta regra. Na verdade quase todos os surfistas sabem que devem realizar um bom “ aquecimento” antes de ir surfar, ato este que é fundamental para um bom funcionamento de toda a estrutura corporal, mas ainda encontramos alguns, nas nossas praias que ignoram este aspeto e resistem á sua aplicação. O “ aquecimento” é imprescindível, pois a sua realização permite um “alerta” a nível fisiológico, que tem como função enviar um aviso prévio ás estruturas, cardiovascular, respiratória e muscular, notificando-as para entrar em funcionamento através de ações físico motoras. Permite também um aumento da temperatura corporal, logo uma melhor adaptação do organismo ao exercício físico. Segundo Weineck (1999), “ “ o aquecimento” tem a função de determinar o desempenho de cada sistema funcional e de estabelecer o momento adequado para o seu funcionamento, a fim de que o organismo possa atingir o seu desempenho máximo. Além disso, ao atingir a temperatura corporal ideal, as reações fisiológicas importantes para o desempenho motor ocorrem nas proporções adequadas para aquela determinada atividade”. O principal objetivo da realização de exercícios de “ aquecimento”, consiste na preparação do organismo para que se adapte na passagem da situação de repouso para uma condição de esforço, este possibilita ao atleta um melhor desempenho físico e técnico, pois o aumento da circulação sanguínea favorece uma maior oxigenação muscular, sendo que esta ativação faculta às estruturas musculares e ligamentares uma maior prontidão para dar respostas ao nível da agilidade e equilíbrio e consequentemente encontrar soluções mais precisas e seguras aos comandos neuromusculares. O “ aquecimento” tem também como função a reduzir os índices de possíveis lesão, que possam ocorrer nas primeiras ações motoras da prática desportiva. No que diz respeito ao “ aquecimento”, será importante não confundir “ aquecimento” com alongamento, pois como já foi dito, “ aquecimento” implica o aumento da temperatura corporal interna e muscular, enquanto o alongamento aumenta o comprimento das fibras musculares, ou seja não causa “ aquecimento”. Desta forma podemos dividir o “ aquecimento” em 3 (três) fases: - Fase Geral
- Fase Especifica
- Fase de Alongamento
A Fase Geral, o “ aquecimento” deve possibilitar um funcionamento mais ativo do organismo como um todo. Deve ser realizado através de exercícios que mobilizem grandes grupos musculares, e executado inicialmente com uma intensidade baixa e ir aumentando gradualmente. Esta fase do “ aquecimento” poderá ter uma duração de 5 a 10 minutos e pode ser realizado com marcha, seguida de corrida lenta e posteriormente aumentar o ritmo. Exemplo de exercícios a realizar nesta fase: A Fase Especifica, baseia-se na realização de exercícios específicos para a modalidade, que visam a ativação de pequenos grupos musculares, que são especificamente usados em determinados gestos desportivos. Estes exercícios devem assemelhar-se tecnicamente aos movimentos típicos da modalidade. No caso do Surf, o aquecimento deve caracterizar-se pela realização de exercícios que envolvam, membros superiores, inferiores e tronco, através de rotações, torções e flexões, sempre realizadas de forma suave. O tempo dispendido nesta fase poderá variar entre 10 a 15 minutos.
Exemplo de exercícios a realizar nesta fase:
A Fase de Alongamento, esta consiste na realização de exercícios estáticos, baseados no alongamento dos vários grupos musculares e tendões, que são recrutados para a execução técnica da modalidade, deste modo pretende-se desenvolver uma maior flexibilidade dos mesmos, permitindo mover os músculos e articulações em todas as amplitudes de movimento. Estes exercícios são realizados através de alongamento suave dos músculos e devem ter uma duração entre 15 a 25 segundos, cada exercício. Durante o alongamento o atleta deve manter o ritmo respiratório lento e coordenado, visando oxigenar ao máximo os músculos que são alongados. Este alongamento é bastante importante na prevenção de lesões musculares e articulares.
Exemplo de exercícios a realizar nesta fase:
Quando vamos realizar uma surfada, é nosso dever em primeiro lugar pensar fazer um bom “ aquecimento”, este vai permitir-nos tirar um maior proveito da atividade, bem como uma maior satisfação a nível motor e técnico. Em algumas situações, queremos realizar uma surfada rápida porque estamos limitados em termos de horários, situação que nos pode levar a ignorar o “ aquecimento” ou realizá-lo de forma menos correta. Nunca devemos entrar na água, sem aquecer bem porque o “ aquecimento” permite obter mais benefícios do que prejuízos, senão vejamos tudo o que de bom nos pode proporcionar: - Aumento do fluxo sanguíneo para os músculos e tecidos;
- Aumento da frequência cardíaca, que prepara o sistema cardiovascular para a atividade;
- Aumento da velocidade de libertação de energia no organismo (velocidade metabólica).
- Aumento da velocidade dos impulsos nervosos, facilitando os movimentos do corpo;
- Aumento da eficiência da enervação recíproca (permitindo que os músculos se relaxem e se contraiam com mais eficiência);
- Ajuda a preparar psicologicamente o surfista, melhorando a concentração;
- Facilita a ampliação da capacidade de alongamento do tecido conjuntivo.
Após a realização da surfada, deve o surfista efetuar uma Recuperação Ativa, esta deve ser breve, cerca de 5 a 10 minutos, com a realização de exercícios de alongamento e relaxamento, de forma a prevenir as contraturas e dores musculares, provocadas pelo encurtamento muscular devido ás fortes contrações ao que foi submetido durante a prática do surf e também facilitar a adaptação do aparelho locomotor e cardio respiratório ao repouso. A realização destes exercícios tendem a restabelecer os níveis satisfatórios de mobilidade articular, reduzir tensões musculares dos tecidos moles, resultando numa melhor mecânica articular. É recomendado que estes exercícios de alongamento sejam efetuados de forma lenta e controlada e que não devam ultrapassar o limite articular. Segundo a Associação Americana de Medicina Desportiva, “ os exercícios de alongamentos provocam o relaxamento muscular, o que faz aliviar as dores causadas pelo stress muscular do treino, além de aumentar a sensação de bem-estar melhorando o humor dos indivíduos”. O “aquecimento” é muito importante e deve ser realizado por todos os surfistas, independentemente da sua idade ou nível técnico.
Escrito por: Patrícia Reis
(...continuação)
(O surf como subcultura e estilo de vida)
Difundido através do cinema norte-americano, o surf tornou-se a partir da década de 50/60, o centro de gravidade de uma diversificada indústria na Califórnia. O aparecimento das primeiras lojas, bandas musicais (Beach Boys), revistas (The Surfer Quarterly) e filmes de surf (The Endless Summer), permite o nascimento da cultura do surf, que passa a ser encarado como um estilo ou uma forma de estar na vida – surf lifestyle, também designado de “espírito aloha”. Na língua havaiana Aloha significa “alegria (oha) de compartilhar (alo) energia vital (ha) no presente (oha). Este mito do surfista na praia com sol, boas ondas e fins de tarde à volta da fogueira, criou no imaginário das pessoas a visão de um sonho.
Se refletirmos sobre o conceito de cultura de um grupo, pode afirmar-se que é o estilo de vida peculiar e distintivo desse grupo, os significados, valores e ideias encarnados nas instituições, nas relações sociais, nos sistemas de crenças, nas tradições e costumes, nos usos de objetos e vida material (Clarke, Jefferson e Roberts,1976). Nesta visão cultura é algo social e historicamente inserido, construído e vivido. Na cultura do surf, os surfistas formam um grupo dentro da sociedade, ou seja, uma subcultura onde os seus membros dividem crenças e experiências comuns que se distinguem dos outros. A cultura do surf inclui, assim, as pessoas, a linguagem, a moda, a música, a literatura, os filmes e o estilo de vida, havendo um lugar privilegiado para a convivência dos que se identificam com essa cultura - a praia, quer sejam praticantes ou simplesmente admiradores do desporto, mas que com a cultura se identificam.
Os surfistas buscam o desejo pela onda perfeita, a vida em torno do oceano e a cultura da praia, daí o surf se ter consagrado não apenas como um desporto, mas também como uma cultura, um estilo de vida, um estado de espírito, liberdade e integração com a natureza. O surf é, assim, algo que mistura desporto, paixão, estilo de vida, comportamento e lazer. Isto significa que, o desporto extrapolou o espaço da praia e configurou um estilo de vida que é consumido por pessoas que podem ser ou não surfistas, frequentar ou não praias, enfrentar ou não o mar, viver ou não em zonas litorais. O surf não se resume, à prática de um desporto, manifesta-se sobretudo, na cultura: diz respeito a roupas, visual, lojas e marcas, comida, natureza, saúde, música, hábitos, media.
Em 1976, Hull elegeu cinco fatores intrínsecos necessários para o surgimento e manutenção de uma cultura de surf, que podem ser aplicáveis para a grande maioria dos destinos de surf: 1. Qualidade e consistência das ondas; 2. Clima (temperatura da água); 3. Acessos públicos relativamente fáceis à praia/linha de costa (exclusividade, custos, distância); 4. Recetividade dos residentes/comunidade local à prática do surf e aos surfistas; 5. Divulgação da atividade de forma a atrair a comunidade. Daqui se conclui, que é a coexistência destes cinco fatores geográficos e sociais que contribuem para o surgimento de uma cultura de surf e consequentemente para o desenvolvimento de um destino de surf. Em suma, pode dizer-se, que muitas regiões possuem boas praias, boas ondas e que podem ser concorrentes entre si, mas, com certeza, a cultura de cada uma delas é exclusiva e este detalhe diferencial torna-se determinante na escolha de um destino de surf.
Como referido na primeira parte deste artigo, o estudo realizado mostrou que a grande diferença no processo de escolha de um destino de surf, reside no atributo ambiente e cultura do surf e que este é o atributo diferenciador e estratégico na gestão de um destino de surf. É, por isso, importante que quem visite o destino “respire” e veja surf por todo o lado, seja na praia, nos centros urbanos, na zona dos bares e restaurantes, nos alojamentos, no comércio local. O ambiente (local) deve identificar-se com o surf, e o surf com esse ambiente.
Além disso, é fundamental que a comunidade local se identifique com esta realidade e se embrenhe com ela. Neste sentido, a cultura do surf deverá influenciar tanto as comunidades visitadas como as visitantes, com um estilo de vida que remete à liberdade e à busca de novas sensações, uma vez que viver o ambiente e a cultura do surf é, sem dúvida, uma experiência que renderá memórias para toda a vida.
É importante relembrar a existência de dois consumidores de surf, os praticantes e os simpatizantes (espectadores e companheiros (as) não-surfistas): aqueles que não surfam, mas que admiram o estilo de vida do desporto e se identificam com os valores da subcultura e que são responsáveis pela maior parte de consumo no mercado de surf, ou seja, partilham os valores da subcultura sem frequentar a praia, justamente através do consumo dos produtos a ela relacionados. É possível perceber que a cultura do surf está aberta a novos integrantes, sendo que a única condição imposta é gostar de surf. O ambiente e a cultura do surf influenciam, assim, não só os praticantes mas todos os que se querem associar a essa cultura, o que torna este segmento de turismo num importante fator de desenvolvimento.
Além disso, o surf tem grande apelo emocional, pois mesmo que não haja boas ondas, os surfistas continuam nos destinos, contemplando o mar e as ondas, palco onde tudo acontece. Tal não sucede com outro tipo de desporto!
No turismo, o que poderá persuadir os turistas a visitar (e revisitar) um determinado local em detrimento de outro é o nível de visibilidade, conhecimento e empatia com o destino e com os seus valores. Os destinos de surf devem, pois, procurar transformar-se em lugares que proporcionem a vivência de experiências ligadas ao surf lifestyle, em vez de simples lugares que apenas possuam ótimas condições para a prática do surf, mas que não tenham mais nada para oferecer. Os destinos de surf devem ter a capacidade de marcar a diferença, de fazer sonhar e criar desejo, só desta forma conseguirão posicionar-se, se praticarem um marketing inovador, capaz de criar vantagens competitivas e comunicar para segmentos específicos.
Sendo o surf uma cultura e um estilo de vida, há que partilhá-lo tentando proporcionar o ambiente, o espaço e as condições ideais para que as pessoas que amam o surf se possam encontrar, partilhar ondas e gostos em comum, num ambiente saudável e descontraído, bem ao estilo do espírito e filosofia surfista. Um ambiente que proporcione a envolvência que eles tanto gostam e onde se sentem bem, o ambiente e cultura do surf.
De referir que, o atributo ambiente e cultura de surf não depende das condições naturais existentes, como a diversidade do tipo de ondas e dos locais para surfar, mas sim da visão dos agentes locais ligados ao surf (surfistas locais, população, autarquia, patrocinadores, associações locais e outras entidades públicas e privadas) e do seu envolvimento para a definição de uma estratégia sustentável e de longo prazo. Essa estratégia deve apostar no surf como um negócio, criador de riqueza, emprego e desenvolvimento local e deverá dar enfoque às questões ambientais, através da valorização da costa, das ondas e praias locais.
O atributo ambiente e cultura de surf tem a capacidade de atrair mais segmentos de turistas de surf, combatendo a sazonalidade, contribuindo para um aumento dos consumos em restauração, alojamento, património e outros recursos, e em simultâneo identificar-se com a comunidade local, posicionando o destino como um verdadeiro destino de surf. Conforme os princípios da sustentabilidade, a indústria do turismo só faz sentido quando traz qualidade de vida, bem-estar e riqueza para as populações locais.
Escrito por: Patrícia Reis
O turismo é atualmente uma das atividades que mais contribui para a sobrevivência de numerosos territórios. A atividade turística tira partido económico dos recursos existentes e constitui um importante fator alavancador para o desenvolvimento económico.
A crescente heterogeneidade nas preferências dos indivíduos torna necessário aprofundar o conhecimento dos fatores que podem influenciar o seu comportamento e o seu processo de decisão/eleição na escolha de um destino. No entanto, conhecer os consumidores não é uma tarefa fácil. Como demonstra a literatura existente sobre o tema, a motivação turística é um processo dinâmico em que interferem múltiplos fatores, internos e externos que condicionam as decisões dos indivíduos e que presidem à tomada de decisão sobre a escolha de um destino. A motivação tornou-se, assim, útil para explicar o comportamento dos turistas, sendo considerada por muitos autores, como o ponto de partida do processo de decisão.
Aprofundar o estudo das motivações turísticas, nomeadamente as motivações pull (desejo dum turista visitar um destino, provocado pelo conhecimento que tem de alguns dos respetivos atributos/atrativos), a fim de dispor de informação sobre as caraterísticas e preferências dos consumidores dos destinos turísticos, revela-se assim, de particular importância e constitui um elemento-chave para o desenvolvimento socioeconómico dos destinos, sobretudo porque facilita a segmentação do mercado. Além disso, ao agrupar por afinidades, os motivos que levam as pessoas a viajar é possível identificar uma grande variedade de tipos de turismo, assim como de turistas, o que irá permitir a adequação da oferta existente, ou a desenvolver, às motivações da procura.
Neste âmbito, o turismo desportivo e náutico (participação ativa ou passiva num desporto competitivo ou recreativo), responde a motivações múltiplas, apresentando-se como uma forma de aliar o lazer à prática desportiva/náutica, consolidando-se no turismo de surf como uma atividade realizada em locais onde predomina o contacto com a natureza, aliada à contemplação do local.
O surf, enquanto atividade desportiva é simultaneamente uma atividade turística/económica. Assim, para os operadores turísticos é considerado uma atividade turística/económica, mas para os surfistas o surf é um desporto competitivo, uma atividade de lazer, um estilo de vida e/ou uma obsessão. Esta perceção é significante para o turismo de surf, porque os turistas de surf primeiro são surfistas e depois turistas (Buckley, 2002). Consequentemente, este conceito afeta o seu comportamento na indústria do turismo, uma vez que as motivações para a viagem se prendem, numa primeira instância, com a qualidade e diversidade de ondas, numa segunda instância com a vivência do ambiente e cultura de surf, ou seja, a vida em torno do oceano e a cultura da praia. Neste ponto de vista, o surf como desporto (a procura da onda perfeita) e o ato de viajar são dois comportamentos/motivações que se cruzam, uma vez que os surfistas se aventuram em experiências de viagem com o objetivo de surfar as ondas perfeitas.
Outro facto relevante é que o surf como estratégia de marketing atrai para uma região tanto o turista praticante como o turista simpatizante (espetadores e companheiros não surfistas). O praticante tanto pode ser atleta, como espectador, é igualmente consumidor de serviços e um futuro divulgador da região. Durante a sua estadia usufrui dos serviços e da infraestrutura como outro turista, porém com nível de exigência diferenciado em razão do seu padrão de consumo.
Neste contexto, surgiu a necessidade de aprofundar a investigação científica relativamente ao segmento de turismo de surf, essencialmente pela escassez de produção de conhecimento relativa às diversas dimensões desta atividade, e que deu origem à dissertação de mestrado em Gestão e Sustentabilidade em turismo, da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESTM). Para tal foram fixados um conjunto de objetivos que permitiram, não só caraterizar o perfil do turista de surf, como avaliar a importância dos atributos de um destino de surf e respetivas dimensões implícitas das suas motivações e determinar segmentos homogéneos com base nessas dimensões implícitas, pelo que recorreu-se ao uso de técnicas de estatística multivariadas (análise fatorial e de clusters).
Relativamente ao perfil do turista de surf (*) a caracterização sociodemográfica dos inquiridos revela que a maioria é de nacionalidade portuguesa (65%), seguindo-se os espanhóis (9%), ingleses (8%), alemães (5%) e franceses (3%). Dos portugueses cerca de 49% são provenientes da área metropolitana de Lisboa, 13% da região Oeste e os restantes do resto do país. Quanto à estrutura etária o grupo mais representado é o relativo às idades compreendidas entre os 25 e 34 anos (43,6%), seguindo os grupos etários 18-24 anos (38,1%) e 35-44 anos (15,8%), o que revela um mercado muito jovem. No que se refere às habilitações literárias constata-se que cerca 60% dos entrevistados concluíram ou frequentam o ensino superior/pós-graduado. Quanto à situação laboral, os dados revelam que a maioria dos turistas está no ativo.
Quanto à frequência com que praticam a modalidade, a maioria dos inquiridos pratica-a entre duas a três ou mais vezes por semana (55.7%), o que sugere a existência de dois grandes grupos de turistas de surf: os turistas de surf habituais e os turistas de surf ocasionais. Entre os destinos de surf portugueses, destacam-se Peniche, Ericeira e Sagres como as principais preferências. Ao considerar todos os destinos de surf (nacionais e internacionais) as preferências continuam a ser Peniche e Ericeira, com a Indonésia e o Havai a ocupar o terceiro e quarto lugar.
Pelos resultados obtidos constatou-se que, de um modo geral, os turistas de surf reconhecem que todos os atributos enumerados (gerais e específicos) são responsáveis pelo motivo da viagem/escolha do destino. No entanto, a diversidade do tipo de ondas, a diversidade dos locais para surfar, o ambiente e cultura do surf e a altura média das ondas, são identificados como os atributos centrais na escolha de um destino de surf. Os atributos periféricos, ou menos relevantes na escolha de um destino são a diversidade do comércio/serviços e o património cultural. Ou seja, são os atributos específicos do destino, aqueles que dependem das condições naturais e da sua preservação, que mais influenciam as escolhas dos praticantes.
Numa segunda fase do estudo, foram identificados dois grupos distintos de consumidores de turismo de surf, cada um destes segmentos atribui valorações diferentes aos fatores de escolha.
O segmento 1, de maior dimensão, representa 70% dos inquiridos com idades compreendidas entre os 25 a 34 anos, menos frequentes quanto à prática do surf, inclui a maioria dos estrangeiros provenientes de Inglaterra e Espanha, considera Peniche, Ericeira e Linha do Estoril como principais destinos de surf e atribui maior relevância a diversidade de tipos de ondas, a diversidade de locais para surfar e o ambiente e cultura do surf como os principais atributos motivadores na escolha de um destino de surf.
O segmento 2, de menor dimensão, representa 30% dos inquiridos e é caracterizado pelos praticantes mais jovens (18 a 24 anos), mais frequentes, provenientes da área metropolitana de Lisboa, considera Peniche, Ericeira e Sagres como principais destinos de surf e atribui maior relevância a diversidade de tipos de ondas, a diversidade de locais para surfar e ao clima como os principais atributos motivadores na escolha de um destino de surf.
A análise realizada mostrou que a grande diferença entre os dois grupos no processo de escolha do destino está no atributo ambiente e cultura do surf. Este é, então, o atributo diferenciador e estratégico na gestão de um destino de surf e no qual se afigura pouco arriscado investir recursos ou incorrer em custos de oportunidade. A sustentabilidade do destino depende, assim, da relação existente entre o surf e a terra, não se podendo dissociar a atividade desportiva – o surf, da praia e do ambiente onde a atividade é praticada e/ou observada.
Neste sentido, é preciso que a comunidade se identifique com a realidade do surf e dos surfistas – a sua cultura e o seu lifestyle, e se embrenhe com ela. De salientar que o ambiente e a cultura do surf influenciam, não só os praticantes mas todos os que se querem associar a essa cultura, o que torna este segmento de turismo num importante fator de desenvolvimento.
Desta forma o resultado positivo ou negativo da experiência deste tipo de turista não depende unicamente das condições naturais existentes, como a diversidade do tipo de ondas e dos locais para surfar, mas também da oferta de outros atrativos, que possibilitem aos indivíduos descobrir e vivenciar o ambiente e a cultura do surf. É essa experiência que o turista de surf procura e que o motiva a viajar para um destino de surf: fazer, ver, cheirar, ouvir e falar de surf. Tema que será abordado na segunda parte deste artigo.
(*) O universo inquirido foi constituído pelos praticantes de surf, não residentes no concelho de Peniche, que assistiram ao evento Rip Curl Pro Portugal 2010, realizado em Peniche entre 7 a 18 de Outubro de 2010.
(continua...)
Escrito por: Edgar Henriques
Atualmente os “Media” dão um grande destaque ao conceito “Sustentabilidade”, quase sempre associado ao Desenvolvimento Sustentável. Este conceito pode ser sintetizado da seguinte forma: Compatibilização das infraestruturas e das atividades humanas com o ambiente e os seus processos naturais, de forma a não exceder os limites da capacidade de regeneração dos recursos naturais, não excedendo as capacidades, de carga e de assimilação do meio.
Segundo o Relatório da Comissão Mundial do Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, 1987 – Relatório Brunddtland), que descreve Desenvolvimento Sustentável “é aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade e as gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades”
Podemos interrogar-nos se o Desporto deve ou não fazer parte deste processo e de que forma pode intervir positivamente na procura do equilíbrio ambiental e consequentemente contribuir para uma melhoria da sustentabilidade.
O Desenvolvimento Sustentável do Desporto, tem gerado muita controvérsia ao nível dos conceitos, mas deverá ser realizada uma reflexão para que se possa chegar a um entendimentos conclusivo sobre esta matéria.
Segundo Da Costa (1997), “ promover uma sociedade sustentável é prever o desenvolvimento e a proteção ambiental como forças complementares, mais do que antagónicas, o que significa criar padrões de desenvolvimento de acordo com as necessidades e limitações da natureza”. No que respeita ao desporto este autor afirma “ que desporto sustentável será quando a sua materialização respeitar os valores intrínsecos da natureza e dele próprio”.
Ao longo dos tempos, tem aumentado o numero de trabalhos de investigação sobre esta temática, alguns apontam para resultados na assunção de compromissos, por parte das entidades envolvidas no fenómeno desportivo, sendo que estas visam a normalização da produção e consumos desportivos, tendo em conta a harmonia com a natureza e sem risco de danos ecológicos.
A Agenda 21 do Movimento Olímpico – Desenvolvimento Sustentável do Desporto, aprovada pelo COI, estabelece princípios de sustentabilidade aplicados ao desporto, bem como um quadro para sua implementação. Este quadro normativo não se limita ao desporto olímpico, os seu propósitos são extensíveis a todo o fenómeno desportivo, pelo que solicita o envolvimento de todos, Movimento Olímpico, Federações, Clubes, Organismos Governamentais, Organismos Não Governamentais, Empresas e Pessoas Singulares, no sentido de integrarem o desenvolvimento sustentável nas suas politicas e atividades. No sentido de contribuir para esta nobre causa, muitas Federações Desportivas Internacionais tem vindo a definir políticas ambientais, programas e códigos de conduta extensíveis a praticantes e organizadores de eventos das modalidades que tutelam. Paralelamente tem surgido outras organizações cuja missão é contribuir para o desenvolvimento sustentável do desporto, através do planeamento, aconselhamento e credenciação no âmbito de programas de gestão e educação ambientais. Em Portugal no que diz respeito ás questões ambientais ligadas ao Surf é muito bem representado pela Organização Não Governamental S.O.S. Salvem O Surf.
Chernuscenko (1994 e 2011), enumera um conjunto de princípios assumidos na sociedade moderna, que considera constituir uma base para a instituição de um modelo de desporto mais sustentável:
Com base neste princípios e eventualmente outros, só poderá surgir uma nova ecologia do desporto, se de facto forem assumidos por todos compromissos que resultem na implementação de medidas objetivas de proteção ambiental. Segundo o que foi escrito e com base em estudos sobre a matéria, é incontornável dissociar o surf deste contexto, ele integra ativamente o processo, senão veja o seguinte: O Meio Ambiente e a Natureza são utilizados, a nível dos seus recursos naturais sob múltiplas formas neste procedimento, pois as atividades económicas ligas ao surf tiram benefícios da natureza ao nível da provisão de matérias-primas, e também para suporte das atividades que desenvolvem, não esquecendo os resíduos e a poluição que provocam. Podemos afirmar que o Surf pode causar impactes ambientais no seu processo de desenvolvimento, facto este poderá ter como alicerce o aumento de praticantes da modalidade, a mediatização dos eventos, este acréscimo leva a que o processo seja mais acelerado e os seus efeitos negativos surjam em diversas direções. O crescimento do surf aumenta as necessidades em equipamentos técnicos, que leva a um aumento da produção industrial, que significa um aumento da poluição e um elevado gasto de recursos naturais. Não podemos também esquecer que o aumento de praticantes e público que acompanha os eventos da modalidade causam desequilíbrios no meio ambiente. Estas pessoas ligadas ao fenómeno do surf, invadem as praias e criam situações de impacte ambiental negativas a nível dos ecossistemas, nomeadamente na produção de resíduos (lixo), erosão dos solos (dunas e arribas), a flora também sofre distúrbios, sendo que a fauna também pode afetada neste processo. Eu sei, que este tema pode gerar controvérsia, pois na generalidade quase todos os surfistas se auto intitulam de “Ambientalistas ou Amigos do Ambiente”, não tenho duvidas disso, muitos se tem unido em torno de causas ambientais, mas temos o dever de pensar “mais alem” e refletir sobre diversos temas como: - As matérias-primas utilizadas para a construção das pranchas de surf, são ou não poluentes?
- A indústria do surf preocupa-se com impactes ambientais?
- Os grandes eventos de surf, são nocivos ao ambiente?
- As energias utilizadas em torno do surf, são prejudiciais ao meio ambiente?
- Será que o surf criar elevadas emissões de CO2 na atmosfera?
- A construção de equipamentos/instalações podem influenciar o equilíbrio paisagístico?
Como prova de que a indústria do surf é bastante agressiva para com natureza e meio ambiente, destaco parte de um artigo, que fala da empresa Americana Clark Foam, uma das maiores no ramo da produção de “blanks” para fabrico de pranchas de surf, escrito por Pedro Arruda (2005), no blog Ondas, que diz o seguinte: “A bomba finalmente caiu. Ou, para pôr as coisas de outra maneira, o mais ecológico de todos os desportos finalmente foi apanhado pelos seus crimes contra o ambiente. Já há muitos anos que se discutem os problemas relacionados com o impacto ambiental da construção de pranchas, em todas as suas fases, desde a construção de blanks até à laminação final. Todos sabíamos, ou uma grande maioria de nós sabia, do caráter nocivo desses impactos. Ao longo dos anos foram sendo mesmo testados novos processos, novos materiais, na busca de uma solução ecológica. Mas a verdade é que a indústria do Surf no seu todo não se esforçou o suficiente para atempadamente obviar este problema. E agora, sem apelo nem agravo, a bomba explodiu. A Clark Foam, o maior e melhor produtor mundial de blanks decidiu fechar portas.” Se pensarmos bem, quando vamos surfar necessitamos de um conjunto de artefactos e meios, que provavelmente, utilizados em nosso benefício e prazer, já provocaram e causaram elevados danos ao ambiente e natureza. Não quero com isto dizer para deixarem de surfar, nada disso, vamos é ter a consciência de tentar minimizar os danos, como por exemplo comprar equipamento reciclado e “amigo” do ambiente, ou privilegiar compras em empresas que se preocupam com a natureza e que tenham projetos ambientais, incentivar os outros surfistas a boas práticas ambientais, dinamizar a educação ambiental, contribuir para a criação de um código de conduta ambiental do surfista. Esta será uma forma ativa de contribuir para a proteção do ambiente e consequentemente, dar o contributo para o desenvolvimento sustentável do desporto. A humanidade depende da natureza para a sua sobrevivência, por isso temos dever de a proteger, para poder-mos viver com ela em plena harmonia. O surfista para desfrutar do seu desporto, também depende da natureza e meio ambiente, por este facto temos o dever de nos empenhar na sua preservação e proteção. Todos os surfistas devem assumir o papel de “Guardião do Templo”, sendo este que para nós é representado pela Natureza, o Mar e as Ondas. A sustentabilidade do nosso tão “amado” desporto, está nas nossas mãos, mas depende da união, dedicação, empenho e compromisso de todos os surfistas. Confiem na Sustentabilidade desta ideia.
Ouvi há alguns dias num programa de televisão sobre surf na RTP, não exatamente por estas palavras, mas basicamente isto: Peniche e Ericeira até podem ter as melhores ondas, mas na realidade o Algarve tem muito melhores condições para o surf.
Confesso que na altura fiquei um pouco perplexo com a afirmação. Andei a pensar no assunto durante uns dias, e na realidade nem me custou muito admitir alguma verdade no que foi dito, se tivermos em consideração que o paradigma do surf se alterou por completo nos últimos anos, consequência da mediatização a que foi sujeito.
Se há uns anos atrás, e não há muitos, o surf e tudo o que o suportava, assentava nos surfistas, e por consequência na máxima da onda perfeita, hoje em dia já não é bem assim.
Enquanto o surf e os seus negócios dependeram unicamente dos surfistas, as coisas não correram lá muito bem em termos económicos, pois um surfista à antiga, precisa basicamente de uma prancha, um fato e pouco mais para ser feliz, e isso, todos concordamos, é manifestamente pouco para desenvolver uma economia em volta do surf.
O surf cresceu, cresceu muito, e em várias vertentes, nomeadamente a turística. O turismo, acima de tudo vende sensações. No caso do turismo de surf, o que é vendido é a sensação de durante um determinado período de tempo, permitir a alguém o sentir-se surfista, e para isso, o menos importante são a qualidade das ondas.
Para quem quer ter a sensação de ser surfista, chega-lhe uma prancha debaixo do braço, sol e água quente na praia, sendo as ondas um pormenor pouco importante. Era basicamente isto que aquela afirmação inicial queria dizer, e até faz sentido.
Tudo mudou relativamente ao surf. Os surfistas, os verdadeiros surfistas, hoje em dia representam uma ínfima parte na economia dita do surf, senão vejamos, se quisermos ser simplistas, o que um turista paga para durante uma semana ter a sensação de ser surfista, equivale quase ao que um surfista gasta durante um ano para poder ser efetivamente surfista.
Obviamente que a indústria do surf necessita dos surfistas que realmente o são, pois são eles em última instância que servem de modelo para preencher o imaginário daqueles que durante um curto período de tempo o querem ser, e serão estes últimos, que acabam por sustentar a já enorme indústria envolvente ao surf, até mesmo depois de passada a semana em que tiveram a sensação que o foram.
Se mudou o paradigma, terá de mudar também a abordagem. Há um antigo ditado que diz: cada um puxa a brasa à sua sardinha, e é basicamente isto que temos que fazer. Ora, se não temos o clima que o Algarve tem, temos de vender o produto de outro modo, que nos serve entrarmos em concorrência direta com o que não temos possibilidade de concorrer.
O que temos de ser capazes de fazer, é transmitir a ideia que, a sensação de ser surfista com melhores ondas e pior clima, é melhor do que a sensação de ser surfista com melhor clima e piores ondas.
Este é na minha opinião o caminho a seguir para diferenciarmos o nosso produto dos restantes do ponto de vista do turismo de surf.
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