É também comum, gente com importância e cargos relevantes dentro do meio do surf, adotarem discursos anti-localismo quando falam publicamente, mas que depois na prática, quando estão dentro de água, nos “picos” em que são locais, tomam atitudes completamente contrárias àquilo que apregoaram.
Antes de mais é preciso diferenciar o localismo radical do localismo moderado, e não colocar tudo no mesmo “saco”, nem generalizar atos isolados e esporádicos como práticas comuns, o que normalmente acontece, possivelmente pelas mesmas razões enunciadas no primeiro parágrafo deste texto.
Não há nenhum surfista que não “dropine”, como não há nenhum surfista que não tenha já sido “dropinado”, agora, a reação a estas duas variáveis da equação, o “dropinador” e o “dropinado” é que se altera conforme o local e a situação em que cada um está, esta é que é a grande diferença, e não vale a pena escamoteá-la.
A questão é bem simples, e tem de haver coragem de a assumir: não há nenhum surfista em nenhum local do mundo, que quando está a surfar na sua terra, não tenha uma postura muito mais conservadora relativamente aos não locais, do que quando não está, e quem o negar não está a ser honesto. A defesa do território e o sentimento de pertença é algo intrínseco à qualidade humana, está-nos nos genes.
Existem regras implicitamente agregadas à prática da modalidade, que qualquer surfista conhece ou deveria conhecer, e estas aprendem-se, ou deveriam aprender-se, da mesma forma que se aprende a fazer surf, aprendem-se na praia, aprendem-se com os surfistas mais velhos, e se forem colocadas em prática dificilmente haverá problemas em qualquer local onde se faça surf, inclusivamente no “spot” onde se é local.
Hoje em dia, com o ritmo a que a nossa sociedade nos obriga a viver, os surfistas acabam por ser também um produto fabricado à pressão, ou seja, o aspirante a surfista aprende mais rapidamente a fazer surf, do que a entender e a interiorizar as regras pelas quais se deve reger dentro de água. Como resultado, quando chega à água, não para de remar de um lado para o outro tipo “barata tonta”, numa tentativa de estar sempre em local de prioridade para apanhar a onda, dá “voltinhas” a quem está sentado no “pico” à espera, faz ondas umas a seguir às outras sem se preocupar em esperar pela sua vez, mete o bico em locais críticos da onda, fazendo quebrar secções que prejudicam o surfista que já lá vem, etc, etc, etc…
Com o aumento exponencial de praticantes, estas situações têm tendência a serem mais comuns, se juntarmos a isso locais onde as ondas são realmente de qualidade ou de “pico” único, como são os casos de Supertubos, Molhe Leste ou Lagide, a mistura tende a ser explosiva, e digam o que disserem, os locais têm, e têm de ter alguma prioridade relativamente aos restantes, é assim em todo o mundo, e assim terá de continuar a ser, ou então corre-se o risco de cairmos na anarquia.
Sejamos mais uma vez honestos e admitamos: o problema do localismo coloca-se quando esta postura típica e ajustadamente local, é transportada pelos surfistas quando se deslocam para surfar num outro “spot” em que não são locais, ignorando as regras comumente aceites dentro da própria cultura do surf. O agravar desta situação deve-se a uma questão muito simples: hoje existem muito mais pessoas a fazer surf do que a serem surfistas, e enquanto os últimos aceitam e respeitam as regras próprias da cultura e modo de vida do surf, fazendo surf porque se identificam com isso, os primeiros não.
O sentimento de impunidade e que toda a gente tem o direito de fazer tudo aquilo que quer, só porque sim, tendo apenas direitos e muito poucos deveres, é algo que começa a estar enraizado no seio da própria sociedade, transportando-se obviamente para o mundo do surf.
Se qualquer surfista tem o direito de ir fazer surf para qualquer lugar do mundo, tem também o dever de respeitar quem já lá está há mais tempo do que ele, e que faz daquela onda/praia a sua casa, e em muitos casos, há mais anos do que a idade daquele que agora acaba de chegar ao “pico” de peito feito como se fosse o novo “galo do galinheiro”.
Esta é a atitude que tem que ser combatida, e com isto não digo que não haja excessos também por parte dos locais, sem dúvida que os há, sou o primeiro a admitir que já cometi alguns.
Agora o que ninguém fala, é que existem muitos surfistas em Peniche, alguns deles que fazem surf há muito mais tempo do que eu, e eu já faço há uns anitos, com os quais aprendi e surfei muitas vezes no Molhe, Super ou Lagide, e hoje não vão para lá, ficando a surfar ondas que não valem nada, porque o “crowd” é tanto e sem respeito, que acabam por não se divertirem, que é “ao fim e ao cabo” a razão última pela qual fazem surf. Não estou disposto a aceitar isto, não estou disposto a que o mesmo me aconteça, e se para isso tiver que me impor dentro de água, fá-lo-ei, pois a idade também aqui, é e terá de ser um posto.
Termino com algo retirado do “site” yosurfer.com, meia-dúzia de linhas que resumem na perfeição uma das regras mais importantes nos “line-up’s” de qualquer parte do mundo, e em Peniche não é, e não será nunca diferente:
Respect Respect Respect. There is an etiquette to surfing. If you don’t understand the rules of the waves, don’t even bother putting the key in the ignition to start your surf trip till you do. Once you understand these rules and you are visiting a break that has a big crowd and a reputation for localism then obey the rules with maximum prejudice. Don’t hassle don’t snake. Even if there is not a big crowd and the spot seems mellow, you should still respect the locals of that spot and not be too aggressive in your attempts to catch waves.
É a minha opinião…
